WormGPT: como um jovem português criou uma IA usada por criminosos e acabou na mira da polícia

O caso começou em 2023, quando uma inteligência artificial conhecida como WormGPT passou a ser vendida em fóruns clandestinos. Dois anos depois, o desenvolvedor foi detido em Portugal. Entenda como tudo aconteceu.

Quando o assunto é inteligência artificial, normalmente pensamos em ferramentas capazes de ajudar a escrever textos, criar imagens, programar ou responder perguntas. Mas existe um lado menos conhecido dessa tecnologia: modelos de inteligência artificial também podem ser adaptados para finalidades criminosas.

Um dos casos que mais chamou atenção nos últimos anos foi o WormGPT, uma ferramenta que ficou conhecida na internet como uma espécie de "ChatGPT para criminosos".

A história começou a ganhar repercussão em 2023, quando pesquisadores de segurança descobriram que a ferramenta estava sendo anunciada em fóruns frequentados por criminosos digitais.

O responsável pelo projeto era um jovem português que utilizava o pseudônimo "Last".

O que inicialmente parecia apenas mais uma ferramenta encontrada no submundo da internet acabou se transformando em uma investigação internacional e, posteriormente, em um caso criminal em Portugal.

Mas o que era o WormGPT?

Apesar do nome e da fama que ganhou, o WormGPT não era uma inteligência artificial criada do zero para competir com o ChatGPT.

Segundo investigações realizadas na época, o sistema utilizava como base o GPT-J, um modelo de linguagem desenvolvido pela organização EleutherAI e disponibilizado publicamente.

A partir dessa tecnologia, o desenvolvedor teria feito adaptações para que o sistema pudesse atender a determinados pedidos que normalmente seriam bloqueados por plataformas comerciais.

Na prática, a grande diferença estava justamente nas restrições.

Enquanto serviços conhecidos implementam mecanismos para impedir determinadas utilizações perigosas, o WormGPT era anunciado como uma ferramenta com poucas ou nenhuma dessas barreiras.

E isso chamou imediatamente a atenção dos especialistas em segurança.

A inteligência artificial já era usada para golpes

Um dos maiores problemas identificados pelos pesquisadores era a capacidade de gerar textos convincentes.

Isso pode parecer algo simples, mas representa uma grande vantagem para criminosos.

Imagine, por exemplo, um golpista tentando convencer um funcionário de uma empresa de que recebeu uma ordem urgente do chefe para realizar uma transferência bancária.

Tradicionalmente, mensagens desse tipo poderiam apresentar erros de português ou parecer pouco naturais.

Com uma inteligência artificial capaz de produzir textos bem escritos, esse tipo de golpe poderia se tornar muito mais convincente.

Pesquisadores da empresa de segurança SlashNext chegaram a testar o WormGPT e demonstraram que a ferramenta poderia ser utilizada para criar mensagens relacionadas a ataques de Business Email Compromise (BEC), um tipo de fraude em que criminosos tentam manipular funcionários ou empresas para conseguir dinheiro ou informações.

O caso chamou atenção justamente porque a inteligência artificial poderia facilitar a produção de mensagens de engenharia social em grande escala.

O jovem já tinha experiência com ferramentas usadas por criminosos

Uma das partes mais interessantes da investigação é que o WormGPT não parece ter sido o primeiro projeto do desenvolvedor.

Uma investigação publicada pelo jornalista especializado em segurança Brian Krebs encontrou ligações entre o usuário conhecido como "Last" e outras ferramentas relacionadas ao cibercrime.

Entre elas estava o Arctic Stealer, utilizado para roubar informações, além de uma versão modificada do DCRat.

Também havia registros relacionados a serviços de ofuscação de código.

Isso indica que o desenvolvedor já tinha experiência com programação e com o mercado clandestino de ferramentas utilizadas por criminosos digitais antes de começar a trabalhar com inteligência artificial.

Quem estava por trás do "Last"?

Em 2023, o jornalista Brian Krebs investigou a identidade por trás do pseudônimo "Last" e publicou informações que relacionavam o desenvolvedor a um jovem português chamado Rafael Morais, ligado à região do Porto.

Na época, o próprio desenvolvedor conversou com Krebs e falou sobre o projeto.

É importante fazer uma ressalva: a Polícia Judiciária portuguesa não divulgou oficialmente o nome completo do suspeito. Portanto, o nome Rafael Morais deve ser tratado como uma identificação atribuída por investigação jornalística, e não como uma informação nominal oficialmente divulgada pela polícia.

Quanto custava para usar o WormGPT?

A ferramenta não era distribuída gratuitamente.

Ela era comercializada em fóruns clandestinos e havia diferentes modalidades de acesso.

Uma investigação publicada em 2023 encontrou anúncios com valores que chegavam a aproximadamente 5 mil euros, dependendo do tipo de licença.

O modelo de negócio era relativamente simples: o desenvolvedor fornecia acesso à ferramenta e cobrava dos interessados.

Ou seja, além de desenvolver a tecnologia, ele conseguiu transformá-la em uma fonte de renda dentro do mercado clandestino.

O WormGPT desapareceu depois de ser exposto

A história ganhou grande repercussão em agosto de 2023, quando pesquisadores de segurança e jornalistas começaram a revelar detalhes sobre a ferramenta e seu desenvolvedor.

Depois da exposição, o WormGPT original deixou de ser promovido.

Mas isso não significou o fim do problema.

O nome "WormGPT" passou a ser utilizado posteriormente por outras pessoas para divulgar ferramentas semelhantes.

Pesquisadores encontraram novas versões e serviços utilizando o mesmo nome, alguns deles baseados em outros modelos de inteligência artificial.

Por isso, é importante não confundir o WormGPT original de 2023 com todas as ferramentas que passaram a utilizar esse nome posteriormente.

A polícia portuguesa entrou no caso

Embora o WormGPT original tenha desaparecido em 2023, a investigação continuou.

Quase dois anos depois, em 12 de fevereiro de 2025, a Polícia Judiciária de Portugal anunciou a detenção de um jovem de 22 anos na região Norte do país.

A operação recebeu o nome de "Neural Kill Switch".

Segundo a Polícia Judiciária, o suspeito estaria relacionado ao desenvolvimento e comercialização de ferramentas de inteligência artificial utilizadas para atividades criminosas.

As autoridades também apreenderam equipamentos e informações consideradas importantes para a investigação.

Ele foi preso?

Aqui existe uma diferença importante entre o que aconteceu e algumas manchetes publicadas nas redes sociais.

O jovem foi detido, mas isso não significa que tenha sido condenado ou que esteja cumprindo uma pena de prisão.

Após o interrogatório judicial, ele ficou em liberdade, sujeito às medidas determinadas pelas autoridades enquanto o processo continuava.

Portanto, dizer simplesmente que "o criador do WormGPT está preso" pode dar uma impressão errada sobre a situação judicial do caso.

A acusação veio depois

A investigação continuou e o Ministério Público português acabou apresentando uma acusação formal.

De acordo com o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), o arguido foi acusado de três crimes de sabotagem informática.

O documento afirma que, entre 2022 e agosto de 2023, ele teria produzido, divulgado e distribuído três programas:

ARTIC STEALER, WORMER MAXIMUM e WORMGPT.

O Ministério Público também aponta uma vantagem patrimonial de aproximadamente 24.290 euros relacionada à atividade investigada.

É importante lembrar que acusação não significa condenação. O processo judicial é que determinará a responsabilidade criminal do acusado.

Afinal, ele criou uma IA do zero?

Não.

Essa é talvez a principal informação que costuma se perder nas versões que circulam nas redes sociais.

O jovem não construiu sozinho uma tecnologia comparável ao ChatGPT desde o primeiro código.

O que as investigações indicam é que ele utilizou um modelo de linguagem que já existia, o GPT-J, e o adaptou para criar uma aplicação voltada a determinados usos.

É uma diferença enorme.

Criar um grande modelo de linguagem do zero exige enormes quantidades de dados, infraestrutura computacional e recursos financeiros.

Adaptar um modelo já existente é uma tarefa muito mais acessível para um desenvolvedor experiente.

E foi justamente essa facilidade que chamou a atenção dos especialistas.

Por que o caso preocupa tanto?

O problema não está apenas no WormGPT.

O caso mostrou algo maior sobre o futuro da inteligência artificial.

À medida que modelos de linguagem de código aberto se tornam mais acessíveis, desenvolvedores podem criar aplicações extremamente diferentes utilizando essas tecnologias como ponto de partida.

Isso é ótimo para pesquisadores, estudantes, empresas e desenvolvedores.

Mas também pode ser explorado por criminosos.

Uma pessoa que antes precisava dominar determinadas técnicas para produzir uma mensagem convincente de phishing, por exemplo, pode utilizar ferramentas de IA para acelerar parte desse trabalho.

A tecnologia não transforma automaticamente alguém em criminoso ou hacker. Mas pode reduzir algumas das barreiras técnicas existentes.

É justamente essa possibilidade que preocupa especialistas em segurança digital.

O WormGPT ainda existe?

O WormGPT original associado ao desenvolvedor português foi encerrado em 2023.

Entretanto, o nome continuou sendo utilizado por diferentes operadores para ferramentas posteriores.

Pesquisadores já identificaram diferentes serviços utilizando o mesmo nome, alguns deles baseados em modelos de inteligência artificial diferentes.

Por isso, encontrar atualmente na internet alguma ferramenta chamada "WormGPT" não significa necessariamente que seja o mesmo sistema criado em Portugal em 2023.

Uma história que vai muito além de um hacker e uma IA

O caso WormGPT representa uma mudança importante na história da inteligência artificial.

Até pouco tempo, uma pessoa interessada em realizar uma operação sofisticada de fraude digital precisava possuir conhecimentos técnicos consideráveis ou contratar alguém que os tivesse.

Com ferramentas generativas, parte dessa barreira pode ser reduzida.

Isso não significa que a IA transforme automaticamente qualquer pessoa em um hacker.

Mas significa que determinadas tarefas podem ser automatizadas, aceleradas e executadas por pessoas com menos conhecimento técnico.

Foi justamente esse aspecto que tornou o WormGPT tão preocupante para pesquisadores e autoridades.

O jovem português não criou uma tecnologia comparável ao ChatGPT do zero.

Ele fez algo diferente: pegou uma tecnologia de inteligência artificial que já existia, adaptou-a, transformou-a em um serviço e encontrou um mercado disposto a pagar por ela.

O resultado acabou chamando a atenção de pesquisadores internacionais, provocando uma investigação policial e levando o caso aos tribunais portugueses.

E talvez essa seja a principal lição dessa história: o futuro da inteligência artificial não será definido apenas pela capacidade dos modelos, mas também pela maneira como essas tecnologias serão utilizadas.

A história do WormGPT começou em 2023, mas a discussão que ela provocou continua atual: como aproveitar o potencial da inteligência artificial sem permitir que a mesma tecnologia seja usada para facilitar crimes?


Fontes consultadas

Polícia Judiciária de Portugal:
Operação "Neural Kill Switch"

Ministério Público de Portugal / DCIAP:
Documento de acusação

Krebs on Security:
Investigação sobre o WormGPT e seu desenvolvedor

Observação: este artigo diferencia informações confirmadas por autoridades de informações obtidas por investigações jornalísticas. O fato de uma pessoa ter sido detida ou acusada não significa que tenha sido condenada. A responsabilidade criminal deve ser determinada pelo processo judicial.

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